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Dois anos nos quais, ao parar, tudo acelerou

Uma reflexão sobre as incertezas, as relações e o poder dos encontros.

 


I. Tudo flui


No Sense-Lab entramos em 2022 com a sensação de fechamento de um ciclo de 2 anos de transformação, que se iniciou com a chegada da pandemia.

Foram dois anos de incertezas, em que o mundo virou do avesso. Que começaram com tudo parando e tudo acelerando ao mesmo tempo. Foram dois anos nos quais fomos submergidos por uma onda atrás da outra e aprendemos a nos reinventar na busca constante pela superfície.

Estamos agora emergindo, pelo menos por enquanto, do isolamento, com a redescoberta dos encontros, das oficinas presenciais, das viagens de imersão, das conversas de corredor e dos papos de boteco.


Foram dois anos que mostraram mais do que nunca que tudo flui. Tudo muda. Nos quais surgiu muita coisa nova, as distâncias se encurtaram e aprendemos a otimizar as conexões e as conversas.

E foram 2 meses de reemergência para o mundo presencial que reafirmaram o poder dos encontros, das relações humanas e do convívio em grupo como forma de lidar com os desafios, as ansiedades e de nos prepararmos para um futuro em constante movimento.



"Se o grupo é uma forma de arte do futuro, então a convivência em grupos é um dom artístico que precisamos cultivar para colher plenamente a promessa deste futuro."

- Jocob Needleman, Centered on the Edge


II. Quando de repente tudo parou ...


Em março de 2020 a pandemia de Covid-19 espraiava no Brasil. Como muitos que tiveram essa possibilidade, no Sense-Lab decidimos trancar nosso escritório para trabalhar de casa até a tempestade passar. Parecia que seria até abril, depois maio, depois novembro, depois até o ano seguinte. No começo os projetos pararam, as conversas com parceiros e pares se voltavam todas para entender como cada um estava lidando com a nova realidade.


Os recursos minguavam. Todos pareciam esperar por algo, mas não sabiam exatamente o que.


Apertamos os cintos, reduzimos custos e tentamos fazer o que podíamos para remar para frente.


O mundo havia parado e a única coisa que era comum a todos era a confusão e o não saber.


"Não podemos ser criativos se nos recusarmos a ficar confusos. A mudança sempre começa com confusão; Grandes ideias e invenções aparecem milagrosamente no espaço do não saber."

- Margaret J. Wheatley


III. Um breve novo normal


Aos poucos começamos a nos acostumar com novos formatos de conversas e relações. O convívio em comunidade tinha migrado para as caixinhas das plataformas virtuais. As relações se tornaram remotas e as oficinas e conversas em grupo habitavam os espaços online.

As distâncias deixaram de importar. Pessoas se espalharam pelo Brasil e pelo mundo, paramos de prestar atenção em onde nossa equipe morava. Contratamos pessoas novas que nunca havíamos visto presencialmente. Não importava mais onde estavam nossos parceiros e clientes.


IV. … e parando, parece que tudo acelerou.


Em julho de 2020, mais uma vez sem avisos, o mundo decidiu que estava na hora de acelerar. O espírito do nosso tempo mais uma vez havia mudado rapidamente, mas ninguém era capaz de entender qual era esse novo estado de espírito.


Para nós tudo começou a ficar frenético. Passamos a descobrir novas formas de fazer e de facilitar conversas e processos. Sem fronteiras, sem as restrições dos formatos presenciais, sem deslocamentos e sem a intimidade dos espaços físicos.


E com isso fomos chamados a ir para o mundo.


Em julho de 2020 embarcamos em um projeto ousado, desafiador pela sua natureza, amplitude e impacto potencial, que remoldou o Sense-Lab. Topamos construir a teoria de mudança para a Rede Global do B Lab e na sequência fomos convidados a tocar o primeiro planejamento estratégico global da Rede. Foram mais de 80 oficinas e reuniões em grupo, envolvendo centenas de pessoas de 7 regiões e mais de 50 países, em um processo de facilitação online extremamente complexo e emergente.


Seguiram-se diversos projetos internacionais para desenhar estratégias, executar programas, refinar planejamentos para o B Lab, depois para o Pacto Global e a BMW Foundation. As portas do mundo se abriam.


Em paralelo aprendíamos a adaptar os nossos processos em território nacional para o ambiente virtual, fossem eles de planejamento estratégico, desenho de estrutura organizacional ou desenvolvimento de ecossistemas. Fortalecemos vínculos com parceiros existentes e criamos novas relações. Ganhamos agilidade e escala. Em 2021 foram quase 40 projetos no Brasil e no mundo. Parecia que tudo acelerava.


Passamos um ano e meio envolvidos em processos sensacionais. Mergulhamos ainda mais no movimento de resistência em diversos projetos com o Instituto Socioambiental, fortalecemos o campo de negócios de impacto com o ICE, ajudamos a replanejar o Akatu, Instituto Sabin, Imaflora, Fundo Vale. Desenvolvemos ecossistemas e redes com o ICLEI, Fundação Grupo Boticário, IDESAM, entre tantos outros parceiros incríveis.


Ao mesmo tempo em que o virtual abria novas possibilidades de formatos e processos, a sequência alucinante de reuniões online, sem respiro, começava a ficar maçante. Aos poucos as relações presenciais, o convívio em grupo e o papo sem propósito pareciam fragmentos de um passado remoto. No novo normal, cada conversa tinha foco e tempo determinado e estava inserida numa sequência eficiente de entregas. Os formatos de diálogo estavam em rápida evolução e começamos a ter a impressão que algo se perdia no caminho.

“Toda mudança social começa com uma conversa.”

- Margaret J. Wheatley

V. Um mundo em ebulição



Olhando para fora, parecia que o mundo todo estava em rápida transformação. Tudo estava em ebulição.


Em um planeta já dividido, com sistemas políticos em esgotamento, parecia que tudo passava a ser polarizável e politizável. Vacina, ensino, armas, ética, Amazônia. Tudo passou a ser motivo para o confronto.


No tabuleiro global, a geopolítica passou a se deslocar em ritmo ainda mais acelerado, cadeias de suprimento foram chacoalhadas, preços, modelos de negócios, tudo parecia se movimentar, surgir, desaparecer e se moldar como nunca antes. De semicondutores à gasolina, dos carros aos alimentos. Tudo passou a ser incerto.


Ao mesmo tempo, a pandemia escancarou a nossa fragilidade, trouxe a crise climática para o centro de todas as discussões. Colocou o ESG, o NetZero, a equidade e a diversidade no radar das empresas e investidores.


Começou a ficar claro que a busca por estabilidade era uma ilusão. A realidade era líquida, a roda passava a girar cada vez mais rápido e não existiria mais status quo.


Sigmund Bauman, filósofo polonês, definiu os tempos atuais como tempos de interregnum - ou entre reinados - onde a antiga ordem social, econômica e política já não se sustenta mais, mas uma nova ordem ainda não conseguiu emergir e se consolidar como alternativa. Segundo ele, nos tempos atuais, apenas nos damos conta de uma dada realidade depois que ela desaparece repentinamente, sendo substituída por algo novo. A complexidade, a ambiguidade e a incerteza são as marcas desses novos tempos.


“Eu não acredito no novo normal. Acredito que daqui para frente viveremos uma sucessão de crises em um mundo em constante transformação.”

- Vincent Stanley, Chief Philosopher Officer da empresa Patagonia


VI. E se conversar for a solução?




Nessa nossa época de polarização, insegurança, resgate de velhos confrontos e intolerância, nós no Sense-Lab decidimos dobrar a nossa aposta no diálogo, na escuta, na transparência e na colaboração radical como forma de seguirmos em frente, resilientes, como sociedade global em um mundo em disrupção.



Reafirmamos nossa vocação de criar e manter espaços de diálogo para pessoas, para organizações e para ecossistemas como única forma de gerar visões genuinamente compartilhadas, lidar com a complexidade e resolver os nossos desafios coletivos.


Mas também nos sentimos chamados a entender onde essa vocação tem o maior potencial de contribuir para um mundo melhor. Assim, escolhemos dois temas que devem ajudar a moldar o futuro: a regeneração do clima, florestas e sociobiodiversidade e a transição para negócios e um sistema econômico regenerativos.

"Quando mudamos a conversa, mudamos o futuro."

- Juanita Brown


VII. O poder das pessoas


As incertezas e o ritmo acelerado mexeram também com o Sense-Lab por dentro. A resiliência individual e as relações entre as pessoas foram postas à prova. E como sempre, ao menos tentamos solucionar as tensões através do diálogo, cuidado e transparência.


Muitas conversas, nem sempre fáceis, nos levaram a redesenhar nossa governança para nos prepararmos para o futuro. A equipe seguiu se consolidando e pudemos celebrar com muita alegria a chegada de 3 novos sócios.


Sobretudo, percebemos que a nossa maior força e diferencial são as pessoas que fazem o Sense-Lab e a cultura que compartilhamos. E que o que mais deve ser cuidado e mantido é o campo para que cada um de nós possa ser o seu melhor.


"Líder é aquele que tem mais fé nas pessoas do que elas mesmas, e que mantém o campo de oportunidades aberto por tempo suficiente para que suas competências floresçam."

- Margaret J. Wheatley


VIII. O poder dos encontros



Quase dois anos após tudo parar, os encontros presenciais aos poucos começaram a ser possíveis de novo.


Voltamos a nos encontrar 2 vezes por semana em nosso escritório, como sempre fazíamos. As oficinas presenciais, na Amazônia, em São Paulo, em todo Brasil começaram a retornar. Os projetos internacionais começaram a incluir viagens e conversas presenciais.


No começo, tivemos que nos acostumar com a volta do contato humano. Novos desafios emergiram. Nos demos conta de que pessoas haviam mudado de cidade, que membros novos moravam longe e que as caixinhas do virtual tinham seus ônus e bônus. Tivemos que resgatar velhas dinâmicas e processos e relembrar como potencializar os encontros olho no olho.


Assim, estamos percebendo mais uma vez que nada será como antes e que, mesmo que não tenha dado tempo de nos acostumarmos, o breve novo normal da pandemia já não existe mais e que o olhar tem que ser para frente.


Enfim, fechamos 2021 com a nossa primeira imersão presencial em 2 anos, refletindo sobre o passado e sonhando o futuro. E assim nos encontramos como grupo, mais unidos do que nunca, com muita presença e vibe boa. E, sobretudo, redescobrimos o poder das relações e percebemos que nada é mais forte do que estarmos juntos.


"Nas organizações, o poder real e a energia são gerados por meio de relacionamentos. Os padrões de relacionamento e as capacidades para formá-los são mais importantes do que tarefas, funções, papéis e posições.

- Margaret J. Wheatley



IX. … e tudo seguirá fluindo


Foram dois anos com tudo parando ao mesmo tempo que tudo acelerava e o Sense-Lab está como ele nasceu e como sempre esteve – em constante movimento. Já nasceu se reinventando.

Mas ao longo da caminhada nos demos conta de que a jornada é mais importante do que o ponto de chegada. E que com quem caminhamos é o que realmente importa.


Percebemos que sonhar é essencial. Que a utopia é a linha do horizonte que nos faz seguir adiante, mas que o sonho só pode ser realidade se for sonhado junto.


Seguimos em frente sonhando e caminhando juntos.


"Pergunte o que é possível, não o que está errado. Continue perguntando."

- Margaret J. Wheatley




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