Fronteiras Econômicas para o Desenvolvimento Sustentável do Brasil
- 12 de jul.
- 19 min de leitura
Atualizado: 13 de jul.
Um ensaio estratégico sobre o momento do Brasil na nova ordem mundial
Por Andreas Ufer
1. Inspiração
Esse ensaio nasceu de uma inquietação pessoal diante de um cenário global em rápida transformação.
Nos últimos anos tive o privilégio de trabalhar com diversas organizações e iniciativas que se propõe e repensar o desenvolvimento econômico, o papel das empresas e a nossa responsabilidade compartilhada com as pessoas e o planeta. Pelo Sense-Lab, organização que co-lidero, apoiamos por diversos anos o desenvolvimento da tese de impacto e estratégia global do B Lab, organização orquestradora da certificação de Empresas B e impulsionadora do movimento ancorado por esses negócios, assim como a consolidação da estrutura organizacional do Sistema B, seu braço na América Latina. Desenvolvemos diversos programas para o CEBDS - Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, para o Pacto Global da ONU e a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Trabalhamos com diversas empresas e organizações estruturantes do campo empresarial e ajudamos a articular o campo da bioeconomia e restauração no Brasil.
Com esse pano de fundo, acompanhando, quase em tempo real, as mudanças na geopolítica, na geoeconomia, na tecnologia e no clima, comecei a me ocupar com uma pergunta simples, mas de resposta complexa: qual é — ou qual deveria ser — o lugar do Brasil nesse novo arranjo mundial que está se formando diante de nós e em um mundo que crescentemente pede respostas mais efetivas para as múltiplas crises que se amontoam?
Essa pergunta ganhou contorno mais nítido ao ler o estudo” O Brasil que o Brasil Quer Ser” [3], que reúne escutas de especialistas, lideranças dos diferentes setores e representantes da população brasileira sobre os caminhos para um novo ideal de país. A leitura me provocou a pensar não apenas sobre como o Brasil é percebido — por si mesmo e pelo mundo —, mas sobre como o país poderia ocupar, de forma mais propositiva e proativa, um espaço de protagonismo nesse novo contexto global. Para mim o campo da narrativa ou da reflexão abstrata é um bom começo, mas o que me moveu foi uma pergunta prática — como transformar essa vocação em ação concreta, capaz de gerar convergência real entre setor privado, sociedade civil e governo?
Foi esse impulso, mais prático do que acadêmico, que me levou a pesquisar, revisitar estudos e reunir referências de diferentes naturezas — diagnósticos econômicos, arcabouços de política pública, mapeamentos setoriais, estudos de opinião e de reputação nacional — na tentativa de começar a construir um quadro de referência que pudesse servir de base tanto para a discussão quanto, sobretudo, para a ação.
Este ensaio é o primeiro resultado desse exercício: uma tentativa de organizar, de forma coerente e fundamentada, as peças que já estão sobre a mesa — a vocação socioambiental do país, as oportunidades econômicas mapeadas por analistas globais, os instrumentos de política pública já em construção e o papel que as empresas e a sociedade civil podem desempenhar nessa jornada — para que elas possam, de fato, conversar entre si e apontar para um caminho comum.
Não se trata de uma resposta acabada e nem de um documento conclusivo. É um convite para seguir a reflexão.
2. Um mundo em reconfiguração
O mundo atravessa uma transição estrutural, não um ciclo passageiro. Três forças de fundo — a hiperaceleração tecnológica, a fragmentação geopolítica e geoeconômica, e a desestabilização climática — estão redesenhando simultaneamente a geografia da produção, os fluxos de capital e as regras do comércio internacional. A isso soma-se um pano de fundo social tenso: acirramento da polarização, crise de atenção e de verdade, e o paradoxo de sociedades hiperconectadas e, ao mesmo tempo, cada vez mais fragmentadas. O Fórum Econômico Mundial descreve esse quadro como uma teia de riscos globais interconectados [1], em uma transição turbulenta na qual já não se pode contar com a cooperação multilateral funcional que, até pouco tempo, parecia a forma mais efetiva para endereçar essas múltiplas crises [2].

Figura 1: Riscos globais ranqueados por severidade em um horizonte de 2 e 10 anos [1]
Nesse cenário, três rupturas merecem destaque por redefinirem o contexto global de forma estrutural [2].
Primeiro, a fragmentação geopolítica parece ter deixado de ser um desvio temporário para se tornar um traço estrutural da economia global, elevando a atratividade de países que combinam escala, dotação de recursos e neutralidade geopolítica — características que empresas buscam ativamente para diversificar cadeias de suprimento excessivamente dependentes de um único bloco.
Segundo, a transição ecológica está deixando de ser uma restrição e passa a ser um motor estrutural de crescimento: a importância relativa de energia limpa, água, terra, biodiversidade e minerais críticos está sendo reavaliada globalmente, e essa reprecificação está redesenhando a geografia da produção industrial. No campo da transição energética, observamos o fenômeno descrito como powershoring: em vez de transportar energia até a indústria, torna-se mais eficiente transportar a indústria até onde a energia limpa é abundante e barata.
Terceiro, os paradigmas de desenvolvimento do século XX — industrialização protecionista, exploração intensiva de recursos naturais e política fiscal expansionista sem foco produtivo — chegaram a seus limites em praticamente todo o mundo em desenvolvimento, inclusive no Brasil.
A consequência prática é que o desenvolvimento cada vez mais passa a ser uma questão de posicionamento estratégico diante de oportunidades emergentes. Países que conseguirem converter vantagens geográficas e territoriais — energia limpa, capital natural, capacidade agrícola, biodiversidade, minerais críticos — em sistemas produtivos competitivos e escaláveis poderão ter diferenciais importantes na corrida por investimento, tecnologia e influência nas próximas décadas [2]. Este é o pano de fundo para as reflexões sobre o lugar do Brasil no mundo.
3. A posição competitiva do Brasil: de vulnerabilidade a vocação
Historicamente, a liderança internacional de um país foi legitimada por dois caminhos: o poder militar, exercido por potências como Estados Unidos, Rússia e China; e o poder econômico, exercido por economias fortes, diversificadas e inovadoras como Alemanha, Japão e os próprios Estados Unidos — países que ditam regras de comércio, atraem investimento e lideram processos industriais e tecnológicos que afetam o mundo inteiro. Mais recentemente, um estudo conduzido a pedido da Presidência da República sobre a imagem e a reputação do Brasil identificou um terceiro caminho de liderança ganhando espaço no cenário global: a potência ambiental — ou, em termos mais precisos, a potência socioambiental, expressão que reconhece que não existe capital natural sem as pessoas, comunidades e culturas que o manejam, protegem e regeneram. É exatamente nesse novo modelo de liderança que o Brasil tem vocação clara, estrutural e, segundo consultas conduzidas com lideranças empresariais, diplomáticas, indígenas e da sociedade civil [3].

Figura 2: Três caminhos possíveis para a liderança internacional [3]
Essa vocação não é só narrativa. Ela se apoia em vantagens estruturais concretas, como mostram análises recentes do Boston Consulting Group [4] e do Centre for Economic Transition Expertise da LSE [2]:
Energia limpa e competitiva. O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo — cerca de 88% de origem renovável (hídrica, solar e eólica) — com custo inferior ao de 60% dos países do bloco (em torno de US$ 103/MWh). Enquanto a maior parte das economias avançadas ainda precisa investir entre US$ 8 e 10 trilhões e de 18 a 30 anos para descarbonizar seus sistemas elétricos, o Brasil já opera, hoje, com uma base majoritariamente descarbonizada — uma vantagem temporal e de custo rara no mundo [4] [2].
Recursos naturais abundantes. O país detém a segunda maior reserva de grafite e a terceira de terras raras do mundo, além de volumes relevantes de cobre, níquel e lítio; concentra 13% da água doce do planeta; abriga o Cerrado, savana mais biodiversa do mundo, e a Floresta Amazônica; e é potência agrícola global — segundo maior produtor mundial de biodiesel e etanol, respondendo por parcelas expressivas da produção mundial de soja, carne bovina, algodão e cana-de-açúcar [4].
Força digital e ecossistema de inovação. Com 95% da população acessando a internet diariamente e o Pix usado por cerca de 70% dos brasileiros — hoje estudado como modelo por outros países do Sul Global —, o Brasil abriga o terceiro maior contingente de desenvolvedores de software do mundo, atrás apenas de China e Índia. É também o principal polo de inovação da América Latina, com dez unicórnios e um ecossistema de startups internacionalizado (Nubank, QuintoAndar, Wellhub, entre outros) [4].
Base industrial diversificada. O país mantém uma das bases industriais mais amplas do Sul Global, com forte presença de montadoras globais e uma indústria aeronáutica de padrão internacional ancorada pela Embraer, além de relevante exportação de máquinas, aço e alimentos processados [4].
Neutralidade geopolítica e diplomacia ativa. Como democracia estável e não alinhada, o Brasil evita o envolvimento direto em conflitos entre grandes potências e mantém relações positivas tanto com economias ocidentais quanto com o Sul Global e o BRICS+. A liderança recente em fóruns como G20, B20, a cúpula do BRICS e a COP30 tem ajudado a reequilibrar as relações comerciais do país, ampliando a participação de parceiros do Sul Global — de 28% para 30% do comércio exterior brasileiro desde 2019 — em um momento no qual a participação dos países do Norte Global caiu de 48% para 44% [4].
Essas vantagens, porém, não se traduzem automaticamente em desenvolvimento. Persistem entraves estruturais relevantes — o chamado "Custo Brasil": barreiras tarifárias elevadas, sistema tributário e regulatório excessivamente complexo (o Brasil ocupa a 124ª posição no ranking global de facilidade para fazer negócios do Banco Mundial), infraestrutura insuficiente (apenas 18% das rodovias são pavimentadas, cerca de metade da média global), juros reais estruturalmente altos e um histórico de baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento (1,19% do PIB, ante uma média de 2,4% entre os países da OCDE) [4] [2]. Soma-se a isso um desafio educacional relevante — jovens brasileiros de 15 anos ficam entre as posições 52ª e 64ª nos rankings internacionais do PISA [4] — e desigualdades regionais, raciais e de gênero ainda profundas [3].
O ponto central, contudo, é que essas fragilidades não anulam a vocação do país: elas definem a agenda de reformas necessária para que o Brasil deixe de ser apenas um fornecedor passivo de commodities "esverdeadas" e passe a ocupar, de fato, os elos de maior valor agregado das cadeias globais que estão se reorganizando ao seu redor [2].
4. A vocação do Brasil: potência socioambiental, gente e cultura
o estudo "O Brasil que o Brasil quer Ser", mencionado anteriormente, converge para um aspecto importante da identidade nacional: de indígenas a CEOs, passando por diplomatas e artistas, a projeção do Brasil como potência ambiental é uma percepção amplamente compartilhada — mas com um elemento importante. Para muitas das vozes ouvidas, não existe potência ambiental sem pessoas. A imagem de "floresta intocada" é imprecisa: a floresta em pé é, em grande medida, resultado do manejo e do trabalho de milhões de pessoas — povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores familiares, comunidades tradicionais. A força do Brasil como potência está na simbiose entre um patrimônio ambiental de proporções continentais, um patrimônio sociocultural de diversidade extraordinária e uma vocação diplomática construída ao longo de décadas por um corpo diplomático reconhecido internacionalmente por sua cultura de diálogo [3].

Figura 3: Posição do Brasil como Potência Socioambiental [3]
Essa é a razão pela qual a expressão mais adequada não é apenas "potência ambiental", mas potência socioambiental — um termo que o país precisa abraçar e apresentar com mais contundência, tanto para seu próprio povo quanto para o mundo. Essa potência se sustenta em três frentes indissociáveis: o meio ambiente (proteção, cuidado, regeneração), as pessoas (justiça, inclusão, dignidade) e a cultura (valorização, resgate e difusão de saberes como meio de promover encontro entre povos diversos). É significativo que a própria população brasileira já perceba essa combinação: quando perguntados sobre o que o mundo deveria saber sobre o Brasil, mais da metade dos brasileiros escolhe "o país da diversidade natural e social" como a ideia mais representativa — à frente até de "o país das artes e da cultura" ou "o país dos negócios" [3].
Essa vocação socioambiental é complementada pela vocação diplomática do país. O Brasil tem hoje a oportunidade de deixar de ser percebido como "país em desenvolvimento" e passar a ser compreendido como "ator-chave em um mundo em desenvolvimento" — uma virada narrativa que também é uma virada estratégica: o mundo está enfrentando escassez de recursos críticos, segurança alimentar, segurança energética e estabilidade climática, e o Brasil concentra abundância exatamente onde o mundo mais precisa. Combinar essa abundância material com uma cultura de diálogo, mediação e construção de pontes — evidenciada pela condução recente do G20, da cúpula do BRICS e da COP30 — posiciona o país como um mediador natural em um momento de fragmentação geopolítica, algo que nenhuma outra grande economia emergente consegue reivindicar com a mesma legitimidade [3] [4].
5. Seis oportunidades estruturais e a corrida global por capital
A oportunidade do Brasil não é apenas narrativa: ela é, também econômica. O investimento global em transição para uma economia de baixo carbono já superou US$ 4 trilhões anuais e deve alcançar algo em torno de US$ 5,6 trilhões ao ano entre 2025 e 2030 sob trajetórias compatíveis com as ambições de emissões líquidas de carbono zero (net zero). Desse total, estima-se que entre US$ 600 e 800 bilhões por ano sejam direcionados a setores intensivos em energia e expostos ao comércio internacional — aço, químicos, fertilizantes, combustíveis e materiais industriais —, exatamente os setores em que o Brasil concentra vantagens comparativas estruturais. Mesmo uma captura modesta desses fluxos poderia elevar o crescimento anual do PIB brasileiro entre 1 e 1,5 ponto percentual no médio prazo, com ganhos sustentados em exportações, receitas fiscais e emprego formal [2].
A partir dessas vantagens estruturais, seis oportunidades concretas se destacam para que o Brasil acelere seu crescimento e fortaleça sua posição competitiva internacional [4]:
Gerar mais valor a partir dos recursos biológicos — ampliando a posição do país como maior exportador mundial de soja, café, açúcar, frango e carne bovina, ao mesmo tempo em que amplia sua atuação como fornecedor global de alimentos processados, biocombustíveis de nova geração e produtos derivados da biodiversidade (fármacos, cosméticos, compostos bioativos), transformando a floresta em pé em fonte real de renda — alavancando o "PIB da floresta".
Acelerar o desenvolvimento de minerais críticos — avançando da extração de matéria-prima bruta para o refino e a produção de bens de maior valor agregado, posicionando o país como fornecedor estratégico para fabricantes globais de tecnologia limpa.
Ser um motor da transição energética global — consolidando o Brasil como destino de baixo custo para indústrias intensivas em energia e para data centers, com potencial de a capacidade instalada de centros de dados quadruplicar até 2030, alcançando cerca de 2 gigawatts.
Integrar-se melhor às cadeias globais de valor agregado — explorando de forma mais estratégica a rede diplomática e comercial do país, os recursos naturais, a mão de obra qualificada e o vasto mercado interno para atrair setores como autopeças, aeroespacial, componentes para energia eólica e veículos fora de estrada.
Desenvolver o Brasil como base de inovação e serviços digitais — consolidando o país como hub global de TI, engenharia, P&D e finanças, especialmente para clientes das Américas, apoiado por um grande contingente de profissionais de tecnologia qualificados e de custo competitivo.
Investir de forma mais agressiva em infraestrutura — talvez a maior oportunidade isolada para elevar produtividade e competitividade de longo prazo, dado que o país hoje investe apenas cerca de 2% do PIB em infraestrutura, ante um potencial de aproximar-se de 4%, patamar mais próximo ao de outras economias emergentes.
Essas oportunidades não competem entre si: elas se reforçam mutuamente através do que pode ser descrito como a industrialização das vantagens comparativas do Brasil — converter geografia em competitividade, competitividade em investimento, investimento em ecossistemas produtivos e esses ecossistemas em crescimento de produtividade, atualização industrial e desenvolvimento mais resiliente, equitativo e ambientalmente sustentável [2].
6. O risco da especialização passiva
As oportunidades descritas não garantem, por si só, um desenvolvimento positivo para o país. A literatura recente sobre transição econômica aponta o risco de uma "maldição dos recursos verdes" (green resource curse): países podem se tornar grandes fornecedores de commodities de baixo carbono, minerais críticos não processados, eletricidade renovável ou hidrogênio verde sem jamais construir as capacidades domésticas, os encadeamentos produtivos e a densidade tecnológica que o desenvolvimento socioeconômico sustentado exige. O rótulo muda, mas a armadilha estrutural permanece a mesma: exportar recursos em vez de conhecimento, extrair minério sem refino, atrair projetos isolados com fraca conexão à economia local [2].
Evitar essa armadilha exige que o Brasil não cometa dois erros opostos, mas complementares: a extração passiva sob um rótulo verde, de um lado, e a política industrial aspiracional desconectada das vantagens estruturais reais do país, de outro. Existe um caminho do meio, que exige planejamento e adaptação, mas é mais promissor. Nesse caminho é preciso identificar onde a geografia brasileira cria vantagens comparativas reais, usar a política pública para resolver os gargalos que impedem essas vantagens de se tornarem capacidades industriais, e garantir que os elos da cadeia de valor relevantes gerem encadeamentos suficientes para melhorar não apenas a quantidade, mas a qualidade do crescimento — em educação, formação técnica, inovação e infraestrutura, logística e financiamento [2].
7. Fronteiras econômicas prioritárias para a sustentabilidade
Cruzando as oportunidades estruturais mapeadas internacionalmente [4] com a Taxonomia Sustentável Brasileira [5] — que classifica atividades econômicas em verdes/sustentáveis, de transição (setores "difíceis de abatimento", como aço e cimento, que adotam as melhores tecnologias disponíveis para reduzir emissões de forma crível) e viabilizadoras (produtos e serviços necessários para que outras atividades se tornem sustentáveis, como P&D, TI verde e componentes para energia renovável) — e com os objetivos socioeconômicos e ambientais estabelecidos no Novo Brasil - Plano de Transformação Ecológica [6] e na Nova Indústria Brasil [7], é possível identificar pelo menos oito grandes fronteiras econômicas prioritárias para a competitividade e o desenvolvimento sustentável do país [5]:

Figura 4: Fronteiras Econômicas para a Sustentabilidade do Brasil
Bioeconomia e agro sustentável — o combate ao desmatamento, a restauração de biomas e a implementação da agricultura de baixo carbono (Plano ABC+) se conectam a segmentos de altíssimo potencial: silvicultura de alta escala e biomanufatura florestal (celulose, papel, bioprodutos); culturas sucroenergéticas, grãos e biocombustíveis (etanol de segunda geração, SAF, biogás); alimentos de alto valor — cacau, café e açaí, com forte componente de sociobioeconomia de impacto; cosméticos, higiene e saúde (HPPC e farmoquímica), que fazem o elo entre patrimônio genético nativo e química fina de alta pureza; e bioindústria, bioinsumos e inovação biológica transversal — o "cérebro" biotecnológico do ecossistema, responsável por biopesticidas, inoculantes e biologia sintética.
Transição energética — expansão da capacidade renovável, modernização da rede (smart grids) e segurança energética de baixo carbono, viabilizando o powershoring de indústrias intensivas em energia.
Insumos críticos para a transição ecológica — mineração estratégica de lítio, cobre, níquel e terras raras, com foco em avançar da extração para o refino e a manufatura de maior valor agregado.
Infraestrutura sustentável — redução do carbono incorporado em materiais, edificações eficientes e adaptação de cidades a eventos climáticos extremos, em meio a um necessário "superciclo de investimentos" em infraestrutura.
Tecnologias digitais para sustentabilidade - TI verde e eficiência de data centers, além do uso de tecnologia e inteligência de dados para monitoramento ambiental, rastreabilidade de cadeias produtivas e inclusão social.
Finanças sustentáveis — Direcionamento do fluxo de capital para projetos verdes, modelagem econômica de transição e precificação de riscos climáticos e ambientais na concessão de crédito e na alocação de investimentos.
Água, saneamento e resíduos — universalização do acesso à água e ao saneamento, encerramento de lixões e transformação de passivos ambientais em biogás e energia, em linha com o Novo Marco do Saneamento.
Mobilidade de baixo carbono — eletrificação de frotas, expansão de modais ferroviário e aquaviário, e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF).
A essas fronteiras somam-se dois campos transversais igualmente estratégicos: bens de consumo e varejo, pela via da logística reversa, da química verde e da rastreabilidade socioambiental de cadeias de suprimento; e a economia criativa — publicidade, design, moda, audiovisual e produção cultural —, cujo papel é menos óbvio, mas decisivo: potencializar as narrativas de solução brasileiras para o mundo e valorizar saberes tradicionais como ativos de inovação e inclusão, algo que o próprio estudo sobre a imagem do país aponta como um dos maiores gaps entre o "Brasil real" e o "Brasil percebido" hoje [3].
8. Da vocação à execução: os pilares de política pública
Reconhecer a vocação e mapear as fronteiras econômicas é necessário, mas não suficiente. A experiência internacional e a literatura recente sobre transição econômica mostram que dotações estruturais favoráveis não se convertem automaticamente em investimento e desenvolvimento: dependem de coordenação macroeconômica, previsibilidade regulatória e instrumentos financeiros capazes de reduzir risco e atrair capital em escala [2]. O Brasil já começou a construir essa arquitetura, e três pilares de política pública oferecem contornos para essa trajetória:
A Taxonomia Sustentável Brasileira [5] cumpre a função de linguagem comum: ao classificar atividades econômicas por setor (CNAE) segundo seu alinhamento a objetivos climáticos e ambientais — mitigação, adaptação, uso sustentável de recursos hídricos, transição para economia circular, proteção da biodiversidade —, ela permite que investidores, bancos e empresas identifiquem com maior precisão onde estão as oportunidades verdes, de transição e viabilizadoras, reduzindo o risco de greenwashing e ampliando a previsibilidade para o capital de longo prazo.
O Novo Brasil - Plano de Transformação Ecológica [6] funciona como o eixo de coordenação macro-microeconômica: ele reconhece — na mesma linha do diagnóstico do Centre for Economic Transition Expertise da LSE [2] — que a consolidação fiscal é necessária, mas não suficiente, para gerar confiança do investidor e reduzir o custo de capital. É preciso, em paralelo, usar de forma seletiva e catalítica os recursos públicos limitados — orçamento verde, Fundo Clima, Eco Invest Brasil, garantias públicas e financiamento misto — para atrair investimento privado e estrangeiro em escala muito maior, num modelo de três camadas em que o Estado atua como coordenador, mitigador de risco e articulador de mercado, não como financiador principal da transição [2]. Simulações recentes sugerem que essa combinação de consolidação fiscal gradual com mobilização catalítica de capital privado pode reduzir a trajetória da dívida pública em relação ao PIB frente a um cenário sem reformas, ao mesmo tempo em que sustenta um patamar mais alto de investimento, entre 21% e 23% do PIB até meados da década de 2030 [2].
A Nova Indústria Brasil [7] complementa o desenho ao endereçar a dimensão industrial: a necessidade de que os setores identificados como prioritários — energia, bioeconomia, minerais críticos, saúde, defesa, tecnologias digitais — avancem de forma coordenada entre política industrial, tecnológica e ambiental, evitando que o país permaneça apenas como exportador de commodities "esverdeadas" e avance, de fato, na industrialização de suas vantagens comparativas.
Um elemento adicional, menos discutido mas estrategicamente relevante, é a possibilidade de o Brasil transformar parte da riqueza obtida com a produção crescente de petróleo e gás — hoje o oitavo maior produtor global — em um fundo soberano robusto, à semelhança da experiência norueguesa, capaz de financiar de forma permanente a adaptação climática, a conservação da biodiversidade e a infraestrutura sustentável, fortalecendo simultaneamente o balanço patrimonial público e a credibilidade macroeconômica do país [2].
9. O papel das empresas: de conformidade a valor sistêmico
Nenhuma estratégia nacional se sustenta sem o engajamento ativo do setor privado. A agenda de sustentabilidade e ESG, ainda que repaginada e sob diversos tipos de pressão, segue em expansão, impulsionado pela demanda crescente de investidores, reguladores e consumidores por responsabilidade socioambiental — uma tendência que amplia tanto a pressão sobre as empresas quanto a oportunidade de conectar sustentabilidade à vantagem competitiva. Um marco de referência amplamente que podemos utilizar para refletir sobre essa jornada corporativa é o Future-Fit Business Benchmark, que descreve a evolução da criação de valor pelas empresas em três estágios: do valor para o acionista, no qual retornos financeiros são tratados como o único critério relevante e impactos negativos tendem a ser externalizados; passando pelo valor compartilhado, no qual o negócio ainda vem primeiro, mas parte dos impactos passa a ser internalizada; até o valor sistêmico, estágio em que o sucesso da empresa passa a depender ativamente da resiliência dos sistemas sociais e ambientais dos quais ela depende [8].

Figura 5: Evolução da percepção da geração de valor dos negócios [8]
Aplicado à realidade brasileira, esse referencial ajuda a explicar por que a maioria das empresas do país ainda concentra esforços em conformidade regulatória e mitigação de riscos imediatos — o nível mais básico da jornada —, sem necessariamente endereçar as causas estruturais dos problemas que buscam mitigar. A oportunidade real está em avançar para estágios em que a liderança passa a enxergar a empresa como parte de um contexto maior, integrando o impacto ao core do negócio e ao planejamento de médio e longo prazo, até atuar como articuladora de ecossistemas — reconhecendo que problemas complexos como mudança climática, desigualdade e degradação ambiental não podem ser resolvidos de forma isolada e impactam de forma significativamente os resultados da empresa no médio e longo prazo [8].
Nesse contexto, coalizões, alianças, movimentos e compromissos empresariais cumprem papel importante, ainda que não sejam a bala de prata, ao criar espaços coletivos de alinhamento, aprendizado e coordenação, permitindo enfrentar desafios que nenhuma empresa resolve isoladamente. A iniciativa Brasil de Soluções, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), é um exemplo concreto dessa mobilização: mapeou 135 iniciativas empresariais associadas, presentes em todos os biomas e regiões do país, das quais mais da metade já se encontra em fase de expansão — evidência de que o setor privado brasileiro já produz, hoje, um repositório real de soluções escaláveis para a transição climática, capital que pode e deve ser conectado a fundos de investimento verde internacionais, inclusive por meio de plataformas globais como o Celeiro de Soluções coordenado pela Presidência da COP30 [9].
10. A janela é estreita: os custos da inação
A oportunidade do Brasil é sensível ao tempo. O país já opera com uma base elétrica majoritariamente descarbonizada, enquanto a maioria de seus concorrentes está apenas começando as fases mais intensivas em capital da descarbonização de seus sistemas elétricos. Essa vantagem cria uma janela na qual o Brasil pode atrair investimento, estabelecer relações de fornecimento, construir credibilidade em certificação e se inserir em cadeias globais de baixo carbono antes que outros países alcancem o mesmo patamar.
Os custos da inação, por sua vez, não são poucos. Sem consolidação fiscal ancorada em uma transformação ecológica orientada a investimento, o Brasil corre o risco de permanecer em um ciclo de dívida elevada, juros altos, baixo crescimento e inflação recorrente pelo lado da oferta, ao mesmo tempo em que enfrenta pressões fiscais crescentes decorrentes de choques climáticos cada vez mais frequentes e severos — secas, enchentes, incêndios florestais e perdas agrícolas [2]. Simultaneamente, o país poderia perder uma janela histórica para atrair investimento doméstico e estrangeiro em larga escala associado à transição ecológica, à bioeconomia, aos minerais críticos, à data centers alimentados por energia limpa, e à reorganização das cadeias globais de valor em torno do powershoring e da produção de baixo carbono [2] [4].
11. Conclusão: da promessa ao protagonismo
O Brasil chega a um ponto de inflexão histórico. Nos últimos anos, governo e iniciativa privada concentraram esforços em sustentar a recuperação econômica e lidar com transformações profundas na geopolítica, no comércio e na tecnologia. Agora, o país tem a chance de se voltar de maneira mais decidida para as oportunidades abertas por esse novo contexto global — assumindo compromissos ambiciosos que exigirão coordenação próxima entre os setores público, privado e a sociedade civil [2]. Isso exige romper, de uma vez, com a lógica histórica que separa países por critérios parciais de desenvolvimento e adotar uma lógica mais horizontal: o mundo, hoje, também está em desenvolvimento, e nações diferentes têm diferentes contribuições decisivas a dar. O Brasil não precisa apenas do mundo — o mundo precisa, tanto ou mais, do Brasil: de sua energia limpa, de seus recursos naturais, de sua capacidade agrícola, de sua diplomacia e, sobretudo, de sua capacidade comprovada de fazer conviver, em um mesmo território, uma biodiversidade e uma sociodiversidade sem paralelo no planeta [3].
Converter essa vocação em resultado concreto — em produtividade, em emprego de qualidade, em liderança global na descarbonização, em resiliência e desenvolvimento sustentável — não é uma tarefa passiva. Depende de coordenação macro e microeconômica consistente, de instrumentos financeiros capazes de mobilizar capital privado em escala, de política industrial seletiva ancorada nas vantagens estruturais reais do país, de reformas regulatórias que reduzam o Custo Brasil, e, de forma decisiva, do engajamento de empresas dispostas a evoluir da conformidade protocolar para a criação de valor sistêmico — articulando fornecedores, comunidades, governos e sociedade civil em torno de agendas coletivas concretas [2]. Se o Brasil souber conduzir essa transição com a mesma disposição diplomática que já demonstrou ao mundo, poderá — finalmente — deixar de correr atrás da promessa de um "país do futuro" para ocupar, com legitimidade e substância, o protagonismo de um país que já é, já tem e já faz: uma potência socioambiental, econômica e diplomática que impulsiona e influencia a nova ordem mundial de forma positiva e gera desenvolvimento econômico equilibrado e sustentável para o país [3].
Referências
[1] WORLD ECONOMIC FORUM. The global risks report 2026. 21. ed. Genebra: WEF, 2026.
[2] PEREIRA DA SILVA, Luiz Awazu; ARBACHE, Jorge; LIMA, Rodrigo; GIMENES, Fernanda; CASTRO PIRES, Manoel de. Brazil's investment-led growth in the ecological transition. London: Centre for Economic Transition Expertise (CETEx), London School of Economics and Political Science, jun. 2026. (CETEx Discussion Paper). Disponível em: https://cetex.org. Acesso em: 12 jul. 2026.
[3] BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Relações Institucionais; Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável; Comissão Temática de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. O Brasil que o Brasil quer ser: caminhos para um novo ideal de país. Brasília, DF: Presidência da República, abr. 2025.
[4] BOSTON CONSULTING GROUP. A nova ordem mundial é uma oportunidade histórica para o Brasil. [S. l.]: BCG, 25 nov. 2025. Disponível em: https://www.bcg.com/publications/2026/a-nova-ordem-mundial-e-uma-oportunidade-historica-para-o-brasil. Acesso em: 12 jul. 2026.
[5] BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Política Econômica. Taxonomia Sustentável Brasileira: cadernos. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/orgaos/spe/taxonomia-sustentavel-brasileira/cadernos/cadernos-da-taxonomia-sustentavel-brasileira. Acesso em: 12 jul. 2026.
[6] BRASIL. Ministério da Fazenda. Novo Brasil – Plano de Transformação Ecológica. Brasília, DF: Ministério da Fazenda, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/transformacao-ecologica. Acesso em: 12 jul. 2026.
[7] BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços; Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial. Nova Indústria Brasil (NIB): forte, transformadora, sustentável. Brasília, DF: MDIC, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mdic/pt-br/home/nova-industria-brasil-nib-forte-transformadora-sustentavel-conselho-nacional-de-desenvolvimento-industrial-cndi.png/view. Acesso em: 12 jul. 2026.
[8] FUTURE-FIT FOUNDATION. Future-fit business benchmark: methodology guide. [S. l.]: Future-Fit Foundation, [20--]. Disponível em: https://futurefitbusiness.org. Acesso em: 12 jul. 2026.
[9] CONSELHO EMPRESARIAL BRASILEIRO PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL; ACCENTURE. Brasil de Soluções. Rio de Janeiro: CEBDS, jul. 2025.




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