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Colaboração Sistêmica: tipos e funções de Iniciativas Multiatores

Atualizado: há 2 dias

por Valentina Mansur


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Introdução


Nas últimas décadas, tivemos avanços significativos em algumas questões sociais e econômicas. De acordo com o Banco Mundial, o número de pessoas em situação de pobreza extrema caiu de 2,3 bilhões em 1990 para cerca de 831 milhões em 2025. A expectativa de vida global aumentou 9 anos, indo de cerca de 64 anos em 1990 para 73 anos em 2023. No Brasil, a mortalidade infantil caiu pela metade entre 1998 e 2002, e hoje fica em torno de 12 por mil, um número historicamente baixo.


Entretanto, ainda persistem questões profundas que não conseguimos endereçar de forma assertiva. A desigualdade social, as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade são algumas delas.


De acordo com a Oxfam, o mundo terá o primeiro trilionário nos próximos 10 anos, mas a pobreza ainda deve perdurar pelos próximos 200 anos. A natureza continua perdendo resiliência: o Relatório Planeta Vivo 2024, publicado pela WWF, indica que a perda de floresta tropical primária em 2023 somou 3,7 milhões de hectares (quase 10 campos de futebol/minuto), gerando ~2,4 Gt de CO₂. Além disso, 2024 foi o ano mais quente já registrado na história, de acordo com a NASA e o observatório europeu Copernicus, com temperatura média global ultrapassando os níveis pré-industriais em mais de 1,5°C.


No campo socioambiental, está cada vez mais claro que os problemas são sistêmicos e, por isso, eles não podem ser endereçados de forma isolada. Isso significa que as questões sociais, ambientais e econômicas estão altamente conectadas. Mexer em um único ponto dentre outros que se conectam neste sistema não altera a realidade de maneira pontual, mas gera interferências e uma série de  impactos em outras áreas que a compõem. A pandemia de COVID-19 não deixou dúvidas disso. O que começou com uma crise sanitária gerou fortes impactos econômicos, devido ao lockdown, trazendo consigo um aprofundamento dos problemas sociais pela perda de renda e pela crise do sistema de saúde, além de ter causado uma intensificação da polarização política, entre outras consequências.


Esse marco histórico é um convite ao aprendizado coletivo sobre formas mais sistêmicas de atuação, o que inclui a busca pela compreensão holística dos problemas sociais e ambientais e, também, uma maneira mais colaborativa de intervir no sistema.


Cada vez mais, os esforços de articulação intersetorial para endereçar problemas complexos têm sido vistos, muitas vezes, no formato de iniciativas multiatores.


Nesse sentido, o Sense-Lab está desenvolvendo o Estudo de Iniciativas Multiatores para o Desenvolvimento de Ecossistemas de Impacto, com o apoio da Fundação Grupo Boticário, Instituto Arapyaú, ICE, Instituto Sabin e Fundo Vale. A publicação, prevista para o início de 2026, tem como objetivo compreender as tipologias das iniciativas multiatores (IMAs) por meio do mapeamento e da análise de mais de 80 casos. Este artigo apresenta uma versão preliminar dos resultados da pesquisa, identificando os tipos e funções das IMAs — informações que podem contribuir para uma compreensão mais profunda dessa forma de colaboração e de suas variações —.



Iniciativas Multiatores identificadas


Iniciativas Multiatores (IMAs) são sistemas interconectados de organizações que colaboram de forma descentralizada para alcançar objetivos coletivos. Essas iniciativas podem variar entre si em seu grau de coordenação e alinhamento, por exemplo, na definição de estratégias, no uso de recursos e na implementação de projetos e atividades conjuntas.


As iniciativas multiatores apresentam variações em sua natureza, grau de coordenação e alinhamento e formas de atuar.


Existem, por exemplo, as IMAs de influência, que focam em incidência e advocacy e fortalecimento do controle social, e podem incluir também a produção e tradução de conhecimento, além de projetos de formação e capacitação. Um exemplo disso é a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, composta por mais de 400 representantes de empresas, finanças, academia e sociedade civil, que impulsiona a liderança do Brasil em uma economia de baixo carbono e promove sinergias entre proteção e uso sustentável das florestas, agropecuária e adaptação climática.


Também existem IMAs com foco em ação coletiva, que coordenam e implementam projetos para responder a problemas socioambientais, pactuando metas e planos entre múltiplos atores e organizando a logística, a mobilização de atores e a operação em si. São arranjos que buscam gerar entregas concretas, como é o caso do Reconstrói RS, que contribui com o esforço de reconstrução do Estado do Rio Grande do Sul, com foco em obras de recuperação da infraestrutura nas regiões diretamente afetadas, e também do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, que promove a restauração do bioma a partir da articulação de atores, induzindo ações e resultados em larga escala.


Um outro tipo de IMAs são as de produção física ou intelectual, que podem ter, como ambição, o desenvolvimento de cadeias de valor, favorecendo a produção e beneficiamento colaborativo, a organização da oferta e logística, a comercialização conjunta e o acesso a mercados, como é o caso da Rede de Sementes do Xingu (ARSX) e outras redes de sementes. Outro exemplo real é a Mapbiomas, uma rede formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia  que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra nos territórios e seus impactos, representando uma iniciativa multiator de produção intelectual .


Além disso, existem as IMAs de alinhamento, que não têm a ambição de produzir ou implementar algo em conjunto, mas buscam construir sentido coletivo, promover coesão narrativa e estratégica entre diversos atores com interesses comuns, e fortalecer a confiança entre eles. Essas iniciativas funcionam como bússola compartilhada do ecossistema, evitando sobreposições e facilitando ações mais coordenadas. Esse é o caso do Pacto em defesa das cabeceiras do Pantanal, uma aliança idealizada pelo WWF-Brasil entre o setor público, setor privado e a sociedade civil organizada para proteger as águas do Pantanal.


Existem, também, as IMAs de conexão e aprendizagem. Elas têm um nível um pouco menor de coordenação que as IMAs de alinhamento (uma vez que não têm a pretensão explícita de gerar maior coordenação entre as estratégias dos seus membros), mas buscam criar espaços de trocas entre pares, disseminar experiências, promover formações e desenvolvimento de capacidades, estimular a reflexão crítica e documentar aprendizados. Essas iniciativas têm um papel importante, porque podem, por exemplo, reunir e fortalecer organizações que não trabalhariam juntas, mas são importantes para destravar algum gargalo. Uma iniciativa que se aproxima desse modelo é a Latimpacto, uma rede na América Latina e no Caribe que reúne provedores de capital com o objetivo de catalisar, de forma mais estratégica, o fluxo de capital humano, intelectual e financeiro para impulsionar uma aplicação mais estratégica de recursos para o impacto social e ambiental.


É importante ressaltar que os exemplos trazidos refletem algumas extrapolações, uma vez que os tipos de iniciativas multiatores representam arquétipos identificados no ecossistema de impacto. Ou seja, o mais comum é que as IMAs combinem funções de diferentes tipos, mas, muitas vezes, um deles prevalece.


Além dos arquétipos descritos acima, nossa análise sobre iniciativas multiatores também possibilita a nomeação de um novo perfil identificado, que pode ser descrito como IMAs desenvolvedoras de ecossistemas

Tipologias

Funções

Exemplos

Influência

  • Produção e tradução de conhecimento.

  • Incidência e advocacy.

  • Fortalecimento do controle social.

  • Formação e capacitação.

Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura.

Ação

  • Implementação colaborativa.

  • Respostas coordenadas.

  • Experimentação sistêmica.

  • Pactuação de metas e planos.

  • Logística, mobilização e operação.

Reconstrói RS, Pacto pela Restauração da Mata Atlântica.

Produção

  • Produção e beneficiamento colaborativo.

  • Organização da oferta e logística.

  • Comercialização conjunta e acesso a mercados.

  • Conservação de recursos naturais, conhecimento tradicional associado e regeneração.

  • Inclusão produtiva e geração de renda.

Mapbiomas, Rede de Sementes do Xingu (ARSX).

Alinhamento

  • Construção de sentido coletivo.

  • Promoção da coesão narrativa.

  • Ancoragem simbólica ou institucional.

  • Fortalecimento da confiança e relações.

  • Preparação para colaboração futura.

Pacto em defesa das cabeceiras do Pantanal.

Conexão e Aprendizagem

  • Criação de espaços de confiança.

  • Troca de experiências e saberes.

  • Formação e desenvolvimento de capacidades.

  • Estímulo à reflexão crítica.

  • Fortalecimento de vínculos e redes.

Latimpacto.

Desenvolvimento de Ecossistemas

  • Mapear e entender o ecossistema.

  • Conectar e articular atores diversos.

  • Fortalecer capacidades e lideranças.

  • Fomentar a colaboração e cocriação.

  • Influenciar sistemas maiores.

  • Alinhar agendas e esforços para a intervenção ecossistêmica.

Movimento Viva Água, Coalizão pelo Impacto, Agência de Desenvolvimento Regional do Sul da Bahia (ADR).

Tabela com o resumo de tipos de Iniciativas Multiatores (IMAs) identificadas.


Iniciativas Multiatores para o desenvolvimento de ecossistemas


Uma Iniciativa de Desenvolvimento de Ecossistemas é uma colaboração entre múltiplos atores, dedicada a fortalecer, de forma intencional, os elementos e as relações que compõem um ecossistema temático ou territorial, conectando diversos setores e campos. Essas iniciativas adotam uma lente ecossistêmica, com foco no entendimento, articulação e fortalecimento dos atores, nas conexões e parcerias estratégicas entre eles e na promoção de espaços de cocriação. Seu objetivo é a criação de condições para a resiliência, a auto-organização e a influência sistemas mais amplos a partir do desenvolvimento do ecossistema como meio para alcançar transformações sociais ou ambientais duradouras.


São iniciativas que adotam uma abordagem sistêmica, e tem como foco principal o desenvolvimento de um ecossistema com recorte territorial e/ou temático. Para isso, adotam estratégias de ativação e desenvolvimento intencional do ecossistema, que envolvem mapear e entender o ecossistema, seus atores e relações; reunir atores diversos para cocriar; alinhar agendas e esforços para a intervenção ecossistêmica; fortalecer atores-chave para o ecossistema, tecer conexões e influenciar sistemas maiores.


Conclusão


Uma vez que os avanços das últimas décadas revelam capacidade de progresso, os impasses atuais deixam claro que soluções duradouras exigem mais do que projetos pontuais: pedem articulações multissetoriais com olhar sistêmico.


As iniciativas multiatores, em suas diversas expressões e, sobretudo, as iniciativas de desenvolvimento de ecossistemas, operam como uma “infraestrutura invisível” que conecta interesses, distribui capacidades e cria bens públicos (confiança, dados, padrões, narrativas e agendas compartilhadas). Para que elas cumpram esse papel, é vital combinar clareza de propósito com governança inclusiva, métricas comuns de impacto, transparência, aprendizagem contínua e financiamento paciente. Ao investir nessa arquitetura colaborativa, as organizações estão buscando acelerar respostas a desafios urgentes, ampliando a escala e resiliência, e aumentando a chance de transformar ganhos pontuais em mudanças sistêmicas.


Em outras palavras, o fato é que ninguém resolverá sozinho os desafios interdependentes. Contudo, ecossistemas bem cultivados podem, sim, virar o jogo — tornando o desenvolvimento socioeconômico mais justo, regenerativo e resiliente —.


Este artigo é parte do 𝙀𝙨𝙩𝙪𝙙𝙤 𝙙𝙚 𝙄𝙣𝙞𝙘𝙞𝙖𝙩𝙞𝙫𝙖𝙨 𝙈𝙪𝙡𝙩𝙞𝙖𝙩𝙤𝙧𝙚𝙨 𝙥𝙖𝙧𝙖 𝙤 𝘿𝙚𝙨𝙚𝙣𝙫𝙤𝙡𝙫𝙞𝙢𝙚𝙣𝙩𝙤 𝙙𝙚 𝙀𝙘𝙤𝙨𝙨𝙞𝙨𝙩𝙚𝙢𝙖𝙨 𝙙𝙚 𝙄𝙢𝙥𝙖𝙘𝙩𝙤, focado nos conhecimentos e experiências relacionados a processos colaborativos. Suas descobertas se consolidam de três formas: 1ª. episódios de podcast (T1); 2ª. artigos; 3ª. publicação integral a respeito do tema reunindo tanto o mapeamento de redes, coalizões e arranjos multiatores voltados ao desenvolvimento de ecossistemas quanto o entendimento profundo sobre as pessoas e organizações que, atualmente, potencializam a solução de problemas de interesse coletivo .

Atores do ecossistema de impacto socioambiental positivo no Brasil que apoiam a iniciativa.
Atores do ecossistema de impacto socioambiental positivo no Brasil que apoiam a iniciativa.


Referências


[1] Poverty Overview.


[2] Dados sobre expectativa de vida, de 2023.


[3] Mundo terá o primeiro trilionário em 10 anos; pobreza deve perdurar pelos próximos 200 anos, diz Oxfam.


[4] Relatório Planeta Vivo, de 2024.


[5] 2024 foi o ano mais quente da história, confirma Nasa.

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